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Animais Domésticos em Unidades de Conservação e suas Implicações

28.11.2018

 

Não é de hoje que seres humanos se interessam pela criação de animais. Seja para alimentação, como gado, galinhas e porcos ou para companhia, como os cães e gatos, o fato é que nós, humanos, iniciamos a domesticação de algumas espécies há milhares de anos. Não há dúvidas de que eles são extremamente carismáticos e fiéis companheiros, mas a questão é: animais domésticos que interagem de forma direta ou indireta com animais silvestres de vida livre podem gerar sérios problemas para a conservação das espécies. A presença de animais domésticos soltos ou abandonados em áreas florestais, em Unidades de Conservação (áreas protegidas por Lei) e até áreas urbanas, traz uma série de implicações para a saúde e segurança dos animais ali presentes.

 

Unidades de Conservação: o que são e qual a sua relação com animais domésticos

 

Unidades de Conservação são áreas naturais de grande importância, que são protegidas para garantir a conservação não só das espécies, mas também do meio abiótico (que não é vivo) ali presentes.

Existem diversos tipos de Unidades de Conservação, sendo que elas podem envolver o uso direto ou indireto da área protegida. Unidades de conservação com uso indireto não envolvem consumo, coleta ou qualquer dano na área. Já as Unidades de Conservação com uso direto, possibilitam coleta e uso dos recursos ali presentes, desde que de forma sustentável. A regulamentação das Unidades de Conservação do Brasil ocorre através do SNUC (Sistema Nacional de Unidades de Conservação) instituído pela Lei 9.985 de Julho de 2000.

Os únicos tipos de Unidade de Conservação em que é permitida a presença de animais domésticos são os Refúgios da Vida Silvestre, Reservas Particulares do Patrimônio Natural e Monumentos Naturais, desde que dentro das áreas particulares presentes nesses tipos de Unidade de Conservação e de acordo com o que for estipulado em seu plano de manejo. Animais domésticos que estejam irregularmente dentro das Unidades, em Áreas de Proteção Permanente ou ainda que possam estar impedindo a regeneração da vegetação de um local, podem ser apreendidos de acordo com o Decreto 6.514 de Julho de 2008.

Ou seja, por Lei, não há permissão para a presença desses animais dentro do território de Unidades de Conservação e há medidas que podem ser tomadas por órgãos competentes garantidas por Decreto.

Dessa forma, o bom manejo de uma Unidade de Conservação, que garanta os seus objetivos de proteção, pode ser afetado por diversos fatores, que incluem ocupação humana e fragmentação, mas também compreendem a presença de espécies como gado, cães e gatos domésticos.

 

Implicações da presença de animais domésticos em Unidades de Conservação

 

É bastante conhecido no mundo todo que a presença de animais invasores - espécies selvagens que não são nativas da região e foram introduzidas e animais domésticos - gera diversos impactos na fauna local.

 

Estima-se que 58% das extinções modernas, que incluem espécies de aves, mamíferos e répteis, são causadas por mamíferos invasores. Além das espécies já extintas, em torno de 600 ainda estão ameaçadas pela presença desses animais.

 

O gato doméstico é um dos predadores mais nocivos para espécies silvestres. Pesquisas apontam que 26% das extinções de répteis, mamíferos e aves são causadas pela presença de gatos domésticos no local de origem. Sem predadores naturais, as populações de animais domésticos ainda pode aumentar descontroladamente.

Para se ter ideia da gravidade do problema, centenas de milhões de aves são mortas anualmente no Canadá por predação somente de gatos domésticos. E outras centenas de bilhões de aves e mamíferos nos Estados Unidos. No Brasil as pesquisas avançam lentamente e nota-se o mesmo padrão, porém não há um dado concreto sobre o número de indivíduos perdidos anualmente.

 

Pesquisas apontam que 26% das extinções de répteis, mamíferos e aves são causadas pela presença de gatos domésticos no local de origem © Thaís Brisque

 

Estudos demonstram que cães domésticos também oferecem grandes riscos para animais silvestres, através da competição e caça. Os cães podem se tornar tão abundantes em áreas protegidas, que tem um potencial de superar o número de indivíduos dos carnívoros nativos da região. Um bom exemplo de espécie brasileira afetada pela presença de cães domésticos é o lobo-guará (Chrysocyon brachyurus). Esta espécie evita permanecer em áreas ocupadas por cães domésticos devido à competição por território.

 

Assim como os gatos, os cães vêm sendo responsáveis pela ameaça de extinção de espécies silvestres. O kiwi, ave do gênero Apteryx e endêmico da Nova Zelândia está ameaçado de extinção devido à introdução de animais invasores, incluindo cães. Uma reportagem da BBC de 2015 já apontava os danos que estavam sendo causados à espécie, sugerindo uma média de 27 aves sendo mortas semanalmente. Estudos apontam ainda, que uma população inteira de kiwi foi eliminada pela presença de um único cão doméstico em uma ilha da Nova Zelândia.

 

Cães não possuem predadores naturais dentro das florestas. A onça parda (Puma concolor) é uma possível predadora de cães aqui no Brasil, mas ela não restringiria sua alimentação a eles, já que não é parte natural de sua dieta, fazendo com que o crescimento de populações de cães soltos continuasse sem resultados efetivos por sua predação.

 

Cães soltos predando uma lebre. Neste caso o animal predado também é invasor, já que não pertence à área de registro. © Vanessa Kanaan

 

Costumamos pensar que as populações de animais silvestres são afetadas somente pela predação, mas existem outros impactos que podem ser gerados por animais domésticos que não são claramente percebidos, como por exemplo o aumento dos níveis de estresse alterando a sobrevivência, as taxas de reprodução, forrageamento (procura por comida), deslocamento e defesa.

 

Esse “clima” de medo que a presença de animais domésticos gera nas populações nativas é tão sério, que pesquisadores apontam um declínio na abundância de populações de aves de 95% na presença de animais domésticos, mesmo que as taxas de predação em si sejam muito baixas.

 

Os animais domésticos também podem ser transmissores de doenças que causam diretamente a morte ou que geram sequelas, alterando as taxas de sobrevivência e de reprodução. Paralelo a isso temos a competição por recursos utilizados pelos animais silvestres. Dessa forma, focar somente na predação, faz com que os impactos sejam subestimados.

 

Medidas preventivas para garantir a segurança dos animais selvagens e domésticos

 

Estudos apontam que os impactos podem ser muito altos dentro de áreas protegidas, pois interferem direta ou indiretamente na vida das espécies que deveriam estar sendo conservadas com a proteção do local. Dessa forma, são várias as medidas que pesquisadores vêm sugerindo para resolver este problema,  algumas mais radicais, como em um caso na Austrália, que na busca por proteger o papagaio-noturno (Pezoporus occidentalis)- espécie que já havia sido considerada extinta por não ser mais encontrada durante anos na natureza - cientistas desenvolveram um robô que através de sensores e câmeras identifica um gato e dispara veneno em seus pelos, fazendo com que o veneno seja ingerido, quando os gatos fizerem a limpeza lambendo a substância.

 

Não são todos os casos que medidas severas como essas são sugeridas, alguns cientistas apontam que medidas de castração, retirada dos animais do local e campanhas de conscientização pela posse responsável podem ser a saída.

Mas as medidas mais brandas devem ocorrer em paralelo umas com as outras e serem realizadas de forma mais efetiva, já que a castração de parte dos animais soltos, por exemplo, não resolve o problema. As medidas de castração para funcionar deveriam abranger a população total de animais abandonados ou soltos. Portanto, campanhas de conscientização são muito necessárias, para que a comunidade seja aliada na busca pela solução do problema.

 

Algumas medidas que você pode adotar e ensinar às pessoas ao seu redor:

  • Mantenha seus animais de estimação castrados, vacinados e dentro de casa;

  • Não abandone animais;

  • Denuncie casos de abandono;

  • Procure adquirir animais por adoção, muitos cães e gatos abandonados acabam dentro de unidades protegidas. Existem muitos animais para serem adotados e essa é uma forma bastante eficiente de tirá-los de locais como esses sem precisar do uso de medidas mais severas como a eutanasia.

  • Cobre das autoridades que forneçam condições para que as campanhas de vacinação, castração e conscientização para posse responsável aconteçam;

  • Mobilize sua comunidade para deixar seus bichinhos de estimação sempre protegidos dentro de casa.

Precisamos urgentemente que os estudos na área cresçam, que as pessoas conheçam os problemas gerados pelo abandono e posse irresponsável desses nossos companheiros fiéis e que medidas sejam tomadas para que as populações silvestres estejam protegidas e nossos animais de estimação bem cuidados e longe das Unidades de Conservação.

 

Vocês sabiam das implicações de animais domésticos para a fauna nativa? O que acham das medidas de prevenção? Comentem aqui embaixo que nós também queremos saber!

 

 

Fontes:

 

Decreto 6.514 de Julho de 2008

Extinção do Kiwi em ilha da Nova Zelândia 

Invasive predators and global biodiversity loss

Lei 9.985 de Julho de 2000

Population impacts of free-ranging domestic cats on mainland vertebrates

O impacto de cães domésticos em uma Unidade de Conservação do Cerrado

O impacto de gatos sobre répteis

Uso de robôs para o controle de gatos 

 

 

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